segunda-feira, 16 de abril de 2007

Maternalismum Pieguisticus

O Lunês.

E eis que chego do trabalho morrrta de saudade da minha Pequena -- isso acontece todos os dias. Cato-a de dentro do cercadinho e, com um ar de quem quer ter um longo e produtivo diálogo, inicio:

- Filhaaaa... Como foi seu dia, meu amor??
- Ajubuzungiduuuffff, mããã...
- Foi meeesmo, bebê? O que mais aconteceu?
- Xubulunguidjubalelê.. pokilunditchiiii!!
- Ahhh, foooi? Calaaaaamba!
- Ha Ha Ha! Tzzzz.. Bilugunjum paticabô!
- E vc papou tudinho?
- A pá i pê pukidifaciiiii jubulungadê!
- Hmmmm... Que lindaaa!
- Pukê, pukê... tchuki tchu..
- Vem cá.. deixa mamãe dar um cheeeeeiro em voxêeee!
- Mããã.. bêzu!

Olha, o idioma do amor é universal. Aqui dentro eu entendo tudo o que ela fala, apontando com aquele dedinho pras coisas e pras pessoas, enquando a baba escorre pelo queixinho redondo.

E eu fico de cá, admirando, completamente arrebatada por aquele serzinho tão pequeno e tão importante, que eu fiz. Desde criança sempre acreditei que, se uma pessoa consegue fazer gente, ela consegue fazer qualquer outra coisa.

Eu consigo fazer qualquer coisa.

Sempre que tenho algum problema ou me sinto desmotivada, busco na memória a primeira manhã que passei com ela. Era um domingo e eu estava ainda internada. Dia quatro de dezembro, por volta das nove da manhã. A enfermeira a levara pro banho matinal e eu aproveitei pra descansar. Estava realmente exausta. Ainda agora era manhã de sábado, café com leite, banho, contrações, bolsa estourando, dores homéricas, hospital, peridural, bisturi, LUNA. Até então, não tivera tempo pra deixar a ficha cair, me situar -- ei, ela nasceu! Entre visitas e mamadas ultradolorosas, aquele foi o primeiro momento de absoluta solitude que tive, nos então últimos 9 meses (e 14 dias!).

Dentro de uns vinte minutos, vejo o bercinho transparente adentrando a porta, com uma Coisinha Pequena de olhos bem pretinhos procurando por mim. Ela esticava a cabecinha pra cima, a fim de captar minha imagem e, naquele espaço mínúsculo de tempo, pude entender o que estava acontecendo. Aquele fora o acontecimento mais importante de toooda a minha curta existência. Eu e ela. Um laço eterno, um vínculo que não acaba nunca. Foi exatamente ali que eu entendi pra que serve o tal do amor.

É lógico que juntei a fome com a vontade de comer. Eu, que sou uma dessas crianças-chorosas inveteradas, desagüei, emocionada, ali mesmo. A enfermeira me olhava angustiada, achando que eu chorava de dor ou de tristeza. Mas era de alegria, de gratidão, essas coisas. Eu mesmo ainda não consigo explicar quais eram os sentimentos naquele emaranhado todo.

Foi um grande baque que fez minhas antigas convicções cairem por terra. Eu, logo eu, que nunca acreditara nesses surtos pós-maternidade que a maioria esmagadora das mulheres passa a ter depois que engravidam. Os tais instintos e intuições maternos eram produtos de uma realidade distante demais da minha. Conceber, gerar, parir e criar, antes da Luna, eram apenas verbos infinitivos usuais, como quaisquer outros que eu via no Aurélio.

E depois de toda essa lição que recebi sobre 'não duvidar do quanto uma mulher é capaz de amar', estou certa de que, na minha festinha de cem anos, em 2078, me lembrarei com riqueza de detalhes do dia em que compreendi que o sentido da minha alma tinha olhinhos-de-jabuticaba. E sorria pra mim. ;-)



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Brasília, Brazil
Thatiana Ribeiro, 29 anos, 15 de setembro, 1978. Trancou o curso de comunicação social por absoluta falta de verba. É apaixonada por boa leitura, boa música e boa comida, embora seja uma pessoa extremamente simples. Solteira e independente, tem uma filha e é louca por ela. Um de seus grandes objetivos é conhecer a Inglaterra e Espanha (de onde vem boa parte de suas raízes). Já começou até a juntar moedas num porquinho cor-de-rosa, pra bancar a empreitada. Curiosa, boca-suja, sarcástica, ciumenta, agridoce, companheira, afetuosa, franca, sensível e tagarela. Adora falar mal da própria vida. :-)

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